História do futebol pernambucano de luto com a morte do pesquisador Carlos Celso

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Por Marcelo Cavalcante, do Blog Arquibancada

Faleceu na noite do sábado, um dos mais apaixonados torcedores do futebol pernambucano. Carlos Celso Cordeiro não resistiu ao tratamento de quimioterapia que estava se submetendo para tratar de uma leucemia. Debilitado, foi vítima de uma infecção respiratória e morreu na noite do sábado, aos 72 anos. Carlos Celso era o principal responsável pela memória do futebol pernambucano. Um pesquisador incansável, que estava quase que diariamente no arquivo público, na rua do Imperador, buscando dados sobre o futebol pernambucano. A poeira daqueles velhos jornais era seu combustível para amar cada vez mais a história do esporte. O corpo foi cremado, nesta tarde, no Cemitério Morada da Paz, em Paulista.

Carlos Celso havia publicado inumeros livros sobre sobre o futebol pernambucano e seus personagens. Era uma devoção para ele. Muitos desses livros foram bancados do próprio bolso. Fazia por amor a causa. Recentemente, estava debruçado no novo projeto: a história do Clássico das Multidões.

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Tive a honra de ser convidado para fazer um dos textos de apresentação da obra. Foi a última vez que nos falamos. Liguei para tirar uma dúvida sobre um dos jogos históricos entre Sport x Santa Cruz e, ele com a presteza de sempre, se colocou à disposição para fazer a pesquisa. Foi quando me informou da doença. Falou de forma tranquila e consciente de que o caso era grave.

O futebol pernambucano perde muito com a morte de Carlos Celso. Seu trabalho de resgatar a história era algo sempre mereceu respeito e admiração. E para nós jornalistas era algo espetacular. Principalmente porque Carlos Celso era um fidalgo. Prestativo até a máxima potência. Estava sempre disposto a ajudar, repassando informações preciosas para enriquecer os textos históricos dos jornais. Até ligava para saber se existia alguma dúvida.

Carlos Celso não foi jogador profissional e nem defendeu o clube que amava dentro de campo. Era, na verdade, um craque das letras. Sabia a história do futebol pernambucano de cor e salteado. E tinha a preocupação de não apenas preservar a história, mas principalmente de propaga-la.

Descanse em paz, Carlos Celso. E saiba que vai fazer muita falta.

Foto: Roberto Vieira

Lembranças recifenses

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Por Fernando Antônio Gonçalves

Na semana passada, saboreando, no Mercado da Encruzilhada, um bolinho de bacalhau com o Epitácio Gueiros, cidadania e espiritualidade imbricadas numa personalidade admirada por amigos e admiradores, o assunto foi o Recife nos anos 70. E num ping-pong, a memória oferecendo de pronto recordações saborosas, destiladas foram as atividades desenvolvidas na capital, anotadas num pedaço de papel tomado de empréstimo de barraca próxima.

Para os que apreciam imagens de ontens, eis uma lista que provoca saudades: admirar chegadas e partidas de aeronaves na mureta do Aeroporto dos Guararapes. Adquirir discos LPs na “A Modinha” e depois na “Aky Discos”. Experimentar roupas na Don Juan, os sapatos chiques (apelidados de “cavalo de aço”) na Motinha. Saborear um geladíssimo chopp no Mustang, bem pertinho da Mesbla. Se empaturrar com o filé “parmé” da Cantinha Star, principalmente nas madrugadas, quando do retorno da rapaziada das “entradas e saídas” na Vigário Tenório. Futebol era narrado pelo Ivan Lima, na PRA8, Rádio Clube de Pernambuco, os comentários imperdíveis ouvidos do Barbosa Filho, na Rádio Jornal do Commercio.

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Nossas parentas mais velhas eram viciadas no Programa das Vovozinha, do Alcides Teixeiras. Nos finais de semana, “Noite de Black-Tie” e “Você Faz o Show” eram programas de televisão ao vivo, imperdíveis. Na ilha Joana Bezerra, milhares aplaudiram o papa João Paulo II, que chamou Dom Hélder Câmara de “irmão dos pobres e meu irmão”. E Lolita, aquele que proclamava, com os olhos revirados e o corpo em rebolações múltiplas, que “quem não conhece Lolita, não conhece o Recife”.

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E a Rainha da Inglaterra, a Elizabeth, desfilando na Av.Boa Viagem, suando mais que calunga de caminhão. Nas quadras do Salesiano, Nóbrega e Marista, os jogos estudantis pegavam fogo e as meninas do IEP decifravam a sigra de frente para trás e de trás para a frente: Isto é Peito, Pegar é Impossível. Natação e Atletismo eram pontificados no Clube Português e do Derby, as meninas usando maiôs “engana-papai” e “engana-mamãe”. Na Bar do Derby, os “baurus” eram disputadíssimos, garçons de um lado para o outro, às vezes perseguindo sabidinhos que buscavam escapulir sem pagar. O peixe-boi da Praça do Derby e os jacarés do Parque Treze de Maio eram visitados por crianças e adultos. No Geraldão, um ginásio de esportes hoje superado, o “Holiday on Ice” assombrou, sem falar no sucesso espetacular de Ray Conniff e Bat Masterson, no Clube Português.

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No cinema Moderno, aplaudimos “Aeroporto 77” e “Tubarão”, com espetaculares efeitos sonoros. E o campeonato pernambucano tinha o Ferroviário, o Santo Amaro (Vovozinha), o Íbis e o América, que possuía uma sede muito frequentada na Estrada do Arraial. E, quando os trocados sobravam, tomávamos muito guaraná Fratelli Vitta e laranjada Cliper no restaurante Veleiro, em Boa Viagem. E a cerveja tinha que ser Antárctica, a de Olinda, que tinha escrito na tampa Av. Presidente Kennedy, 4.400.E as aguardentes Pitu e Serra Grande eram engarrafadas em cascos branco, verde e depois âmbar”. A fábrica da Coca-Cola era bem pertinho do Parque da Jaqueira, enquanto a Fratelli Vita ficava defronte da Igreja da Soledade.

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Entre os hábitos da juventude, jogar boliche no Boa Boliche, na Av. Barão de Souza Leão; ou construir uma bomba de cano de PVC para jogar água no carnaval. Brincar Carnaval no corso, na Rua da Concórdia e na Conde da Boa Vista, num jipe sem capota ou num Galaxy sem portas, à noite complementando a folia no Clube Internacional ou Clube Português. E mais: tomar banho de mar em Boa Viagem (sem tubarão) com boia feita de câmara-de-ar de caminhão, no posto 4. Aos sábados, 10 horas, Sessão Bossa Jovem no Cinema São Luiz ou no Cinema Veneza.

Havia festas que se chamavam “assustados”, acontecidas nas garagens das casas, com luz negra e estopa de polimento nas paredes, pra dar efeito “especial”, ouvindo “Yellow River”,”Mandy” ou Elas por Elas Internacional. A única bebida alcoólica na época era rum-com-coca (Cuba Libre). Nas tardes ensolaradas, tomar sorvete na Fri-Sabor (perto do Colégio Salesiano), ou no Gemba, mais tradicional.

Comer “chocolate peixinho” da Renda Priori, embrulhado em papel dourado, prateado, vermelho, bala Gasosa, Nego Bom e Torrone, satisfaziam os mais gulosos. Fumar Du Morrier, o cigarro do Kojak, para quem desejava impressionar as colegiais. E tomar Coca-Cola em garrafinhas pequenas, do mesmo tamanho do Guaraná Caçula (Antarctica), Clipper ou Grapette e Mirinda. Fazer pic-nic aos domingos, no Horto de Dois Irmãos, divertir-se nos brinquedos da FECIN (nossa Disneyworld) e escorregar no tobogã da rua da Aurora. Passear na lancha da CTU, no rio Capibaribe, ou frequentar os bares e/ou boates em Olinda, onde o Samburá, o Zé Pequeno, o Eu e Tu e ainda o Las Vegas eram os preferidos. Quem estudou na UFPE conheceu o Bar da Tripa, próximo à Escola de Engenharia.

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Outros programas: assistir ao desfile de 7 de Setembro, na Conde da Boa Vista, dançar forró na Casa de Festejos da Torre, lanchar na Karblen da rua do Sossego ou na Casa Matos da rua Nova ou na lanchonete do 1º andar da Mesbla. Frequentar a Feirinha da Praça do Entroncamento, os bares Cravo e Canela, Acochadinho (Olinda), Fundo do Poço, Senzala, Água de Beber, Chaplin, Bar do Ninho, também em Olinda, e o “Depois do Escuro” na Torre, Pirata e Olho Nú em Casa Forte (onde se apresentava a Bandinha de Pau e Corda) e O Som da Terra no Talude (BR 101).

Imperdível, o Baile dos Artistas no Batutas de São José onde todo mundo se gostava e o problema maior era quando uma briga se estabelecia, dada a gigantesca dificuldade de se escafeder por uma escadinha pra lá de estreita.

Quem viveu alguma das situações acima, não deve se preocupar com a Terceira Idade. É um felizardo, pois viveu o Recife como ninguém pode vivenciar mais !!!

Crônica publicada em 03.09.2012 no Jornal da Besta Fubana

Energia eólica e os desafios socioambientais

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Por Heitor Scalambrini
Professor da UFPE

A partir de 2007, ano a ano, o crescimento da geração eólica no país chama a atenção. Se há nove anos a potencia instalada era de 667 MW, em 2015 chegou a 8.120 MW, ou seja, um aumento de 12 vezes. Verifica-se também que vários municípios brasileiros sofreram mudanças radicais com alterações bruscas em suas paisagens e no modo de vida de suas populações. Essas mudanças representam o início de um novo ciclo de exploração econômica, o chamado “negócio dos ventos”.

Várias são as razões que tem atraído estes empreendimentos a nosso país. Além da crise econômica mundial de 2008 que provocou uma capacidade ociosa na Europa, e assim equipamentos chegaram até nós com preço vantajosos; sem dúvida a “qualidade dos ventos”, em particular na região Nordeste é outro grande atrativo. E é neste território, onde hoje se concentra 75% de toda potencia eólica instalada no país.

Determinados Estados criaram políticas próprias de incentivo à energia eólica, com Isenções fiscais e tributárias, concessão de subsídios, flexibilização da legislação ambiental (p. ex. Pernambuco aboliu os estudos ambientais EIA/RIMA). Associados aos financiamentos de longo prazo do BNDES (e mais recentemente da Caixa Econômica Federal), e ao preço irrisório da terra, estas tem sido as razões principais para atrair os empreendedores. É o resultado da combinação destes fatores que possibilita que a energia eólica ofereça preços imbatíveis nos leilões realizados pela Aneel. Tornando assim à segunda fonte energética mais barata. Esta situação esconde o fato dos custos ambientais e sociais decorrentes da implantação dos complexos eólicos serem altos, embora não sejam contabilizados nos “custos” da geração, pois não são pagos pelos empreendedores, e, sim, por toda a sociedade.

Ao mesmo tempo em que esta atividade econômica teve uma rápida expansão, gerou impactos, conflitos e injustiças socioambientais. São visíveis os impactos provocados por esta fonte renovável, chamada por muitos de energia limpa. Define-se por energia limpa aquela que não libera, durante seu processo de produção, resíduos ou gases poluentes geradores do efeito estufa e do aquecimento global. Ou ainda, que apresenta um impacto menor sobre o ambiente do que as fontes convencionais, como aquelas geradas pelos combustíveis.

Todavia nas “definições” de energia limpa não são levadas em conta as questões sociais e mesmo ambientais causados pela produção industrial da eletricidade eólica que necessita de grandes áreas, e um volume considerável de água, devido ao alto consumo de concreto para a construção das bases de sustentação das turbinas. Impactos sobre o uso de terras é quantificado pela área ocupada, sendo que em geral, as turbinas eólicas ocupam 6 a 8 ha/MW, a um custo médio de R$ 4,5 milhões/MW. Sem duvida, poderia ser argumentado que estas áreas sejam compartilhadas, como ocorrem em outras partes do planeta, ou seja, utilizada concomitantemente para outros propósitos, como agricultura, criação de pequenos animais, …. Mas isto não vem acontecendo.

Logo, o modelo adotado de implantação dessa atividade econômica no Brasil é em si, causador de inúmeros problemas ao meio ambiente e as pessoas. Os parques eólicos têm deixado profundos rastros de destruição na vida das comunidades atingidas (exemplos não faltam). Não somente com a instalação dos aerogeradores, mas desde a obtenção do terreno (pela compra, ou pelo arrendamento), sua preparação (desmatamento, terraplanagem, compactação, abertura de estradas de acesso dos equipamentos), a construção das linhas de transmissão. Destrói territórios, desconstitui atividades produtivas e desestrutura modos de vida de subsistência.

Tem agravado a situação a velocidade em que os parques eólicos estão sendo instalados, sem o devido acompanhamento e fiscalização, sem que requisitos socioambientais sejam atendidos e cumpridos.

Na questão da terra necessária para produzir energia em larga escala, os empreendedores vão comprando, ou arrendando as terras da população local. São na verdade desapropriações feitas pela iniciativa privada como parte de estratégias agressivas para implantação dos complexos eólicos, que acabam inviabilizando a sobrevivências de outras atividades econômicas locais, como a pesca artesanal, a cata de mariscos, a agricultura familiar, a criação de animais, …. Assim comunidades inteiras são afetadas na sua relação com o território e muito pouco, ou quase nada recebem em troca.
Várias situações marcaram e ainda marcam a presença de empresas eólicas. O discurso do ambientalmente correto esconde práticas socialmente injustas das empresas do grande capital, evidenciadas cada vez mais com o passar do tempo. Para implantação dos parques e complexos as empresas utilizam de diferentes expedientes como a celebração de contratos draconianos com proprietários e posseiros, a compra de grandes extensões de terras, a apropriação indevida de áreas com características de terras devolutas e de uso coletivo.

Os contratos celebrados põem em dúvida os princípios de lisura e transparência da parte das empresas. Os trabalhadores se sentem pressionados a assinarem os contratos sendo proibidos de analisarem o conteúdo de maneira independente, sempre induzidos por algum funcionário das empresas.

Quem continua a viver nessas regiões quase sempre enfrenta a impossibilidade de continuar a produção local, de manter seu modo de subsistência. A atividade eólica, tanto costeira ou interiorizada acaba com as condições de sobrevivência no lugar e em seu entorno, gerando poucos empregos de qualidade para os moradores da região, e deixando lucros bem limitados. Tudo isso depois da euforia da etapa de instalação dos equipamentos, com as obras civis, que acabam atraindo por tempo determinado, trabalhadores locais e de outras regiões. Depois das obras concluídas vem à rebordosa, com as demissões. Assim tem acontecido. Cria-se a ilusão de prosperidade com o apoio da propaganda enganosa. O discurso da geração de renda e emprego faz parte da estratégia. Com relação à agressão ambiental têm sido atingidas áreas costeiras com a destruição de manguezais, restingas, remoção de dunas, provocando efeitos devastadores para pescadores, marisqueiras, ribeirinhos. Tais situações tem sido constatadas no Ceará e Rio Grande do Norte.

Em estados como Bahia, Piauí e Pernambuco a exploração desta atividade ocorre no interior, em áreas montanhosas, de grande altitude, no ecossistema Caatinga e Mata Atlântica (ou o que sobrou dela). E também nos brejos de altitude, existente em Pernambuco e na Paraíba, verdadeiras ilhas de vegetação úmida em meio ao ecossistema seco da Caatinga, onde a vegetação existente são resquícios da Mata Atlântica primária, proliferando mananciais de água que formam os riachos abastecedores de bacias hidrográficas. Portanto são áreas onde se deveriam incentivar a conservação, preservação e a recuperação destes ecossistemas naturais, dos seus mananciais e cursos de água.

Todavia, o movimento das administrações municipais, estaduais e federal caminha em sentido contrário ao de proteger estes santuários da vida. Além da omissão e conivência incentivam e promovem o desmatamento de áreas de proteção permanente em nome do “desenvolvimento econômico”, da geração de emprego e renda, justificando a destruição ambiental e a vida das populações nativas em nome do interesse público (?).

A produção de energia elétrica a partir dos ventos hoje é uma atividade econômica, cujo modelo de exploração implantado, causa inúmeros problemas afetando diretamente a qualidade de vida das pessoas. Contribuindo mais e mais para ampliar um fenômeno que já atinge uma parte importante do território nordestino a desertificação. A produção de energia eólica é necessária, desde que preserve as funções e os serviços dos complexos sistemas naturais que combatem as consequências previstas pelo aquecimento global. Mas também se preserve as populações locais e seus modos de vida.

Afinal a quem serve este modelo de implantação em que o estado cooptado se omite e não fiscaliza? O que se constata são aspectos negativos que poderiam ser evitados, desde que houvesse o interesse e uma maior preocupação dos governantes quanto aos métodos e procedimentos, uma avaliação mais rigorosa dos licenciamentos que levasse em conta a análise de alternativas locacionais e tecnológicas, assim minimizando os impactos desta fonte energética.

Logo, não se pode considerar, levando em conta como estão sendo implantados os atuais projetos eólicos, nem que sejam socialmente responsáveis e nem que sejam ambientalmente sustentáveis. Longe disso.