Lembranças recifenses

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Por Fernando Antônio Gonçalves

Na semana passada, saboreando, no Mercado da Encruzilhada, um bolinho de bacalhau com o Epitácio Gueiros, cidadania e espiritualidade imbricadas numa personalidade admirada por amigos e admiradores, o assunto foi o Recife nos anos 70. E num ping-pong, a memória oferecendo de pronto recordações saborosas, destiladas foram as atividades desenvolvidas na capital, anotadas num pedaço de papel tomado de empréstimo de barraca próxima.

Para os que apreciam imagens de ontens, eis uma lista que provoca saudades: admirar chegadas e partidas de aeronaves na mureta do Aeroporto dos Guararapes. Adquirir discos LPs na “A Modinha” e depois na “Aky Discos”. Experimentar roupas na Don Juan, os sapatos chiques (apelidados de “cavalo de aço”) na Motinha. Saborear um geladíssimo chopp no Mustang, bem pertinho da Mesbla. Se empaturrar com o filé “parmé” da Cantinha Star, principalmente nas madrugadas, quando do retorno da rapaziada das “entradas e saídas” na Vigário Tenório. Futebol era narrado pelo Ivan Lima, na PRA8, Rádio Clube de Pernambuco, os comentários imperdíveis ouvidos do Barbosa Filho, na Rádio Jornal do Commercio.

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Nossas parentas mais velhas eram viciadas no Programa das Vovozinha, do Alcides Teixeiras. Nos finais de semana, “Noite de Black-Tie” e “Você Faz o Show” eram programas de televisão ao vivo, imperdíveis. Na ilha Joana Bezerra, milhares aplaudiram o papa João Paulo II, que chamou Dom Hélder Câmara de “irmão dos pobres e meu irmão”. E Lolita, aquele que proclamava, com os olhos revirados e o corpo em rebolações múltiplas, que “quem não conhece Lolita, não conhece o Recife”.

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E a Rainha da Inglaterra, a Elizabeth, desfilando na Av.Boa Viagem, suando mais que calunga de caminhão. Nas quadras do Salesiano, Nóbrega e Marista, os jogos estudantis pegavam fogo e as meninas do IEP decifravam a sigra de frente para trás e de trás para a frente: Isto é Peito, Pegar é Impossível. Natação e Atletismo eram pontificados no Clube Português e do Derby, as meninas usando maiôs “engana-papai” e “engana-mamãe”. Na Bar do Derby, os “baurus” eram disputadíssimos, garçons de um lado para o outro, às vezes perseguindo sabidinhos que buscavam escapulir sem pagar. O peixe-boi da Praça do Derby e os jacarés do Parque Treze de Maio eram visitados por crianças e adultos. No Geraldão, um ginásio de esportes hoje superado, o “Holiday on Ice” assombrou, sem falar no sucesso espetacular de Ray Conniff e Bat Masterson, no Clube Português.

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No cinema Moderno, aplaudimos “Aeroporto 77” e “Tubarão”, com espetaculares efeitos sonoros. E o campeonato pernambucano tinha o Ferroviário, o Santo Amaro (Vovozinha), o Íbis e o América, que possuía uma sede muito frequentada na Estrada do Arraial. E, quando os trocados sobravam, tomávamos muito guaraná Fratelli Vitta e laranjada Cliper no restaurante Veleiro, em Boa Viagem. E a cerveja tinha que ser Antárctica, a de Olinda, que tinha escrito na tampa Av. Presidente Kennedy, 4.400.E as aguardentes Pitu e Serra Grande eram engarrafadas em cascos branco, verde e depois âmbar”. A fábrica da Coca-Cola era bem pertinho do Parque da Jaqueira, enquanto a Fratelli Vita ficava defronte da Igreja da Soledade.

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Entre os hábitos da juventude, jogar boliche no Boa Boliche, na Av. Barão de Souza Leão; ou construir uma bomba de cano de PVC para jogar água no carnaval. Brincar Carnaval no corso, na Rua da Concórdia e na Conde da Boa Vista, num jipe sem capota ou num Galaxy sem portas, à noite complementando a folia no Clube Internacional ou Clube Português. E mais: tomar banho de mar em Boa Viagem (sem tubarão) com boia feita de câmara-de-ar de caminhão, no posto 4. Aos sábados, 10 horas, Sessão Bossa Jovem no Cinema São Luiz ou no Cinema Veneza.

Havia festas que se chamavam “assustados”, acontecidas nas garagens das casas, com luz negra e estopa de polimento nas paredes, pra dar efeito “especial”, ouvindo “Yellow River”,”Mandy” ou Elas por Elas Internacional. A única bebida alcoólica na época era rum-com-coca (Cuba Libre). Nas tardes ensolaradas, tomar sorvete na Fri-Sabor (perto do Colégio Salesiano), ou no Gemba, mais tradicional.

Comer “chocolate peixinho” da Renda Priori, embrulhado em papel dourado, prateado, vermelho, bala Gasosa, Nego Bom e Torrone, satisfaziam os mais gulosos. Fumar Du Morrier, o cigarro do Kojak, para quem desejava impressionar as colegiais. E tomar Coca-Cola em garrafinhas pequenas, do mesmo tamanho do Guaraná Caçula (Antarctica), Clipper ou Grapette e Mirinda. Fazer pic-nic aos domingos, no Horto de Dois Irmãos, divertir-se nos brinquedos da FECIN (nossa Disneyworld) e escorregar no tobogã da rua da Aurora. Passear na lancha da CTU, no rio Capibaribe, ou frequentar os bares e/ou boates em Olinda, onde o Samburá, o Zé Pequeno, o Eu e Tu e ainda o Las Vegas eram os preferidos. Quem estudou na UFPE conheceu o Bar da Tripa, próximo à Escola de Engenharia.

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Outros programas: assistir ao desfile de 7 de Setembro, na Conde da Boa Vista, dançar forró na Casa de Festejos da Torre, lanchar na Karblen da rua do Sossego ou na Casa Matos da rua Nova ou na lanchonete do 1º andar da Mesbla. Frequentar a Feirinha da Praça do Entroncamento, os bares Cravo e Canela, Acochadinho (Olinda), Fundo do Poço, Senzala, Água de Beber, Chaplin, Bar do Ninho, também em Olinda, e o “Depois do Escuro” na Torre, Pirata e Olho Nú em Casa Forte (onde se apresentava a Bandinha de Pau e Corda) e O Som da Terra no Talude (BR 101).

Imperdível, o Baile dos Artistas no Batutas de São José onde todo mundo se gostava e o problema maior era quando uma briga se estabelecia, dada a gigantesca dificuldade de se escafeder por uma escadinha pra lá de estreita.

Quem viveu alguma das situações acima, não deve se preocupar com a Terceira Idade. É um felizardo, pois viveu o Recife como ninguém pode vivenciar mais !!!

Crônica publicada em 03.09.2012 no Jornal da Besta Fubana

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