Ela via o mundo de outra forma

Lúcida, feliz, poeta e apaixonada pela vida, assim era como se descrevia Esther Camurça, nascida em 27 de abril de 1920. Até seus 93 anos ela ainda escrevia poemas e teve três livros publicados. Esther morou grande parte de sua vida sozinha na cobertura de um prédio no bairro do Espinheiro. No mesmo edifício, morava uma de suas filhas, mas D. Esther não gostava da ideia de se sentir vigiada. “Eu tenho demais senso de liberdade”, dizia justificando com o fato de ter nascido em uma cidade chamada Redenção, no Ceará. “O nome é porque ali foi o primeiro lugar a libertar os escravos e acho que esse sentimento foi passado para mim”, explicava a poetiza.

Vaidosa e de hábitos excêntricos, Esther toda manhã tomava banho de sol na varanda do seu apartamento. “O prédio da frente está desabitado, então eu sento aqui nesta cadeira, tiro a roupa e pego o sol todinho (sic)”, confidenciava. No quarto, uma coleção de chapéus que punha sobre sua cabeça raspada. Os cabelos ela tirou por opção e confessava que gostava de se sentir observada na rua. “A gente não perde a feminilidade envelhecendo não. Pelo menos eu, estou inteiraça (sic)”, brincava a poetiza. Óculos grandes e lenços coloridos completavam o visual da jovem senhora.

A vaidade de D. Esther não estava só nos cuidados com a aparência, mas também nas palavras. Ela sempre falava orgulhosa do parentesco com Raimundo Teixeira, criador da bandeira nacional. “Era primo legítimo da minha mãe e isso me envaidece muito”, dizia orgulhosa. Ela ainda sugeria para os que não se recordam do nome do parente famoso: “coloca na internet pra ver”. O computador dividia a estante da sala com o seu toca-discos.

Aos 93 anos, Esther não pensava em esperar parada a vida passar e todo dinheiro que juntou, gastava em viagens. Com memória de fazer inveja, D. Esther recitava poemas antigos sem esquecer nem uma palavra. Sobre a curiosidade que a imagem dela despertava, ela declarava: “Muitos devem se perguntar o que uma velha de 93 anos tem dentro de si. Eu digo que tenho desejos fortes, e muitos sonhos”.

Esther Camurça, que ocupou a cadeira 16 da ALANE – Academia de Letras e Artes do Nordeste, morreu em 18 de novembro de 2014, deixando um legado e uma saudade indescritível.

Sob  texto de Vicente Carvalho